31 de jan. de 2011

O que me impulsionou para a vitória, foi uma crítica!

Rapidamente consegui acompanhar o aprendizado no primeiro ano escolar, apesar do meu sotaque e com uma vantagem eu já sabia ler e escrever em italiano, o que me valeu fazer uma média com professores e diretor,ensinando as músicas italianas da época. No segundo ano tudo foi mais fácil. A professora era D Marieta Rolim de Moura, que veio a acompanhar a mesma turma até o final do grupo.  Por três anos, convivemos professora e alunas.A professora era tão valorizada como o padre ou o prefeito da cidade.,o ensino era voltado para  a preparação para a vida, dando cultura e preparando o aluno para melhor viver em sociedade.Tínhamos aula de orfeão, quando aprendíamos o solfejo e aula de educação artística,quando aprendíamos além da pintura o artesanato. Nessa aula  eu e  a Clarice ajudávamos a professora, pois sabíamos croché,tricô, bordávamos(vagonite, ponto cruz ,e pontos de bordados). Todo trabalho executado era exposto no final do ano.Para nós era uma grande realização ver as pessoas admirando os nossos trabalhos..O interessante é que a mesma professora, ministrava todas as matérias, e com que competência!  Havia muitas festas onde o aluno mostrava o que tinha aprendido em aula. A festa do dia das mães era muito esperada. Preparando para essa festa a professora deu uma tarefa: decorar a poesia 'Três mães."Ela era muito comprida e difícil. Eu tinha facilidade em recitar.O prazo para saber a poesia era cinco dias.No terceiro dia eu já sabia interpretar a poesia,enquanto que a classe só ficaria pronta após o prazo.Não fui a escolhida e sabe porque?Segundo a professora eu tinha muito sotaque, nem parecia brasileira.Fiquei muito chateada, pois até as colegas acharam que eu era a melhor, mas aí decidi que o português não me atrapalharia mais a minha vida. Eu dominaria tal língua.Sabe o que aconteceu? Aprendi tudo . Fiz até um curso de oratória pago por Carlos Lacerda, que me considerava ótima oradora. E para completar quando dona Marieta  quis fazer faculdade eu trabalhava num curso preparatório e, com muito orgulho a tornei apta para o vestibular. Vocês não acham que parei por aí, é lógico que não fiz todos os cursos necessário e passei a fazer análise política na Tribuna da Imprensa do Rio de Janeiro. Ganhei prémios como oradora e como escritora. Quando realmente você quer alguma coisa e faz  as ações certas você consegue. Eu sou a prova disso!

30 de jan. de 2011

Sempre que se faz necessário, um anjo aparece na minha vida!

Observando o início de minha amizade com a Maria Clarice vejo que ela foi o anjo que o pai colocou na minha vida para que se cumprisse os seus desígnios.
Com sua amizade pude fazer o que fazia antes e com isso recuperei  minha alegria e me senti livre de novo.
Eu disse que vovó era racista, mas com a família da Clarice tudo foi diferente. Vovó tratava ela e sua família com respeito, gostava muito deles. Sabem por que?
Entre as duas famílias havia só duas diferenças: a cor da pele e eles sempre foram serviçais enquanto que minha família era branca como a neve e quase  sempre foram patrões, no mais tudo era igual.
A água e o pão eram sagrados. Nenhum poderia ser desperdiçado. O pão era o sustento do corpo e demorava 24h para ficar pronto, o fermento era natural. Em casa tínhamos guardado uma muda dele, na casa da Clarice era uma garrafada. A farinha era escura e muito cara por isso só se fazia pão uma vez por semana. O pão era amassado, passado no cilindro, modelado e colocado para crescer num lugar quente e se cobria com cobertor.
As minas d'agua eram tesouros e como tal eram protegidos e cuidadas diariamente, plantava-se árvores para protege-la. Vovó dizia que a agua era o alimento da vida.
Na casa da Clarice não se chegava ou saída sem pedir a bênção aos mais velhos, como na minha. Nas duas famílias todos tinham suas obrigações, ninguém se servia antes dos mais velhos.
Resumindo as duas famílias eram iguais uma mineira e a outra italiana. Cada vez nossas famílias mais se aproximavam. Antes de ir para a aula Clarice passava em casa tomava banho e se aprontava, tudo com a supervisão de vovó. Ela preparava nossa bolsa e nos acompanhava até ao grupo.
Na hora do recreio ela levava nossos lanches. Na lateral da escola havia um portão com uma portinhola por onde ela passava os lanches: sempre um pão com molho e queijo, ou com salada e uma enorme jarra de suco. Eu sempre comi muito pouco e a Clarice acabava comendo quase os dois pães.
O mais divertido era quando não tinha aula, a Clarice chegava cedo e nos juntas íamos a pé pegávamos dois cavalos seus pais, mandavam frutas e verduras para os meus e vínhamos para a cidade. Antes passávamos pela agua virtuosa, que era um jacto de água que jorrava da terra. Eu e ela passávamos correndo pelo jato várias vezes e depois íamos para casa.
Adivinha como éramos recebidos.
É lógico que com um corretivo, mas nós sempre voltávamos lá. A brincadeira era tão divertida que valia a pena correr esse risco.

28 de jan. de 2011

Uma italiana em escola para brasileiros!

Atendendo a minha ânsia de aprender meus pais me matricularam no Grupo Escolar de Cerqueira César, hoje Avelino Pereira.
Nasci no Brasil, mas fui criada como italiana: língua, modos e maneira de ser.
Tudo foi preparado para meu ingresso na escola: a saia pregueada de casimira, a blusa branca de tricoline, os pares de meia soquete branco, o sapato preto, estava um brilho só, até fitas branca para o cabelo foi comprado.
Meus pais compraram o melhor material escolar: caderno bonitos que traziam os hinos oficiais na contra capa, lápis preto, uma caixa de 36 lápis de cor, uma cor mais linda que a outra, apontador, canetas e penas.
Tudo era maravilhoso, só se esqueceram que eu já sabia ler e escrever em italiano e não sabia falar o português, só entendia. Acredito que para meus pais não havia diferença entre eu e uma criança típica brasileira.
No primeiro dia de aula, bem antes do início do dia letivo, me aprontei, pus o uniforme, meu cabelo foi trançado e amarrado laço de fita. Vovó Bárbara seguiu comigo ,levando a minha bolsa com meus materiais. Ela seguia toda orgulhosa como que levando um troféu.
Os portões já estavam abertos e vovó entrou comigo. As crianças faziam muita algazarra. Fizemos fila para acompanhar a professoa até a classe. Como íamos dois a dois uma menina se achegou ao meu lado, e demonstrando que era obsevadora foi logo dizendo "Eu sei que você não é brasileira, mas eu entendo sua língua e vou te ajudar". Foi aí que nasceu minha outra irmã. Eu que estava perdida no meio da cambada de meninas fui salva por uma desconhecida.
Já na classe os problemas começaram. Eu entendia tudo que a professora falava, mas quando eu tentava reponder todas riam muito. Nessa época as classes não eram mistas, havia classes só de meninas ou só de meninos. Cada vez que as meninas caçoavam de mim,  minha nova amiga saía em minha defesa.
No final da aula a professora pediu para meu pai vir falar com o diretor. Tão logo eu cheguei, papai foi até a escola. Sabe o que o diretor queria? Que eu aprendesse português. Eu continuaria na escola, ao mesmo tempo que deveria ter um professor para me ensinar a nova língua.
Sugestão aceita lá fui eu ter aulas particulares, mas como continuei indo a aula, quem de verdade me ensinou o português foi a minha nova amiga. Fiquei sabendo que seu nome era Maria Clarice, morava no sítio Três Ranchos, tinha mais três irmãos. Ela era a mais velha de todos. Entendia o italiano, pois toda sua família sempre trabalharam com a tradicional família Moura Leite. Ela fazia questão de dizer que era uma menina negra com muito orgulho.
Na classe sempre que eu tentava falar, ela dizia a palavra e pedia que eu repedisse, e assim com a atenção especial de minha professorinha em dois meses eu já me comunicava bem, e cada vez que errava Maria Clarice me corrigia. Por isso sempre disse aos meus filhos que na verdade ela foi minha primeira professora.
Logo a amizade entre nossas família nasceu .Uma freguentava a casa da outra. O interessante é que minha avó que era racista nunca percebeu que Clarice era negra. Acho que sua grande amizade por mim só fez vovó ver sua grandeza de alma e não sua cor.

26 de jan. de 2011

Acredito que foi aí que me tornei tímida, reservada e de poucos amigos!

Todas as crianças sofrem com uma mudança, mas para mim foi maior o meu sofrimento, pois além de me afastarem de meu melhor amigo perdi toda a imensidão de espaço que eu percorria quase que todos os dias.
Nessa época passei a falar pouco, só conversava muito com vovó. Não tinha amigos, meu constante companheiro era meu cachorro, com quem eu falava muito,  conservo até hoje esse costume ,não faço questão da companhia humana, mas não consigo viver sem cães ao meu redor.
Acredito que amo tanto os cães porque nessa época eles foram os únicos a me fazerem companhia 24h. Minha mãe estava atarefada com o restaurante, minha irmã pouco se interessava por mim, talves por ser 10 anos mais velha, vovó não demorou nada para começar a pegar encomendas de tricô e crochê.
Foi aí que comecei a me adaptar a nova vida pois comecei a tecer com ela. O meu dia começou a ficar cheio: cedinho nos íamos na horta e na volta vínhamos vendendo verduras. Eu adora gritar "Olha a verdura", e vovó orgulhosa ia dizendo "Essa é a minha neta".
Essa relação entre neta e avó logo começou a chamar atenção de famílias tradicionais com os turcos e italianos. Todos saiam de suas casas só para nos ver e assim nos vendíamos muito. E na hora das entregas das encomendas, então! Era um Show só!
Vovó fazia questão de ir dizendo as peças que eu tinha feito! Nos duas fazíamos muito dinheiro que era todo entregue ao meu pai, pois era ele que nos dava tudo que queríamos.
Nessas entregas fiz amizade com o filho e o sobrinho do farmarcéutico que era nosso vizinho. Nos domingos nós brincávamos quintal da farmácia.Subíamos nas árvores, mexiamos na terra, comíamos frutas direto do pé.
O novo ano chegou e com ele a hora de ir para a escola.
Novamente eu seria testada! .

25 de jan. de 2011

Como foi difícil a vida de uma roceira na cidade!

Antes do almoço já estávamos na nova casa. A casa era grande, mas em nada lembrava a casa do sítio. Tinha três quartos, uma sala imensa, tudo dando para uma sacada bem grande, a  cozinha da casa era junto com a sala de refeições. Na parte de baixo ficava o bar bem sortido e o salão imenso com mesas e cadeiras para se servir as refeições, uma cozinha imensa e um quintal pequeno.
Na minha primeira saída  a rua com meu cachorro,me senti como um animal, enjaulado num zoológico, aberto para a visitação pública. Todos me olhavam de cima em baixo, me analisando.
O que me alegrou foi conhecer o dono do bar próximo a minha casa, o Carioca, ele gostou de mim bem rápido, o que mais o aproximou foi a cor dos meus olhos, que segundo ele eram os mais lindos que ele havia visto.
Todos os dias eu ia lá, comprar sorvete e principalmente conversar com o Carioca.
No mais tudo era uma chatice. Eu não tinha onde ir até que vovó  Bárbara decidiu fazer uma horta na chácara que papai possuia na saída da cidade. Como pegava todo o quarteirão, as casas alugadas ficavam na frente e no fundo ficava o pomar e o terreno onde foi feito a horta.
Daí em diante todos os dias eu e ela íamos para lá. Eu brincava na terra, subia nas árvores.
O desagradável é que tive de fantasiar de menina da cidade: vestido da moda ao invez de minhas roupas surradas, sapato boneca nos pés, e até permanente me fizeram. Fiquei parecendo uma boneca sem vida.
A minha alegria de viver tinha tirado férias.

24 de jan. de 2011

De tanto pedir vovó Bárbara, conseguiu o que queria!

 Desde que eu aprendi a ler e escrever sozinha, vovó Bárbara começou a dizer "Quando el bambino è inteligente, i genitori affielaché egli possa progrediri sempre di più".
Por muito tempo ela repetiu aos meus pais a frase "Quando o filho é inteligente, cabe aos pais garantir que ele possa progredir sempre".
Essa frase era para explicar porque que ela queria que mudássemos para a cidade. Segundo ela  na cidade eu teria condições de aprender muito mais, e me desenvolver muito mais ainda.
Diz o ditado que a água mole em pedra dura  tanto bate até que fura, e foi isso que aconteceu com meus pais. Papai finalmente decidiu mudar para Cerqueira César, uma cidade onde ele já havia comprado alguns imóveis, juntamente com um tio.
Foi por orientação desse mesmo tio que papai comprou um bar e como na parte de cima do bar havia uma residência, decidiu para lá mudar.
O meu amigo de toda minha vida continuaria no sítio pois seu pai continuaria trabalhando para o meu, cuidando de tudo até ele decidir o que fazer com ele. O caminhão foi alugado para levar a mudança. Tudo já estava arrumado pronto para por no caminhão.
Eu só tinha sete anos, pouco sabia da vida, mas sabia que estava preste a deixar para trás a mais bela época da minha vida, Vovó percebendo que eu estava triste procurou me animar, falando de tudo que teria na cidade. Pouco ela me animou.
Nessa noite fomos deitar cedo, pois o caminhão chegaria as 4h. Essa noite aconteceu a 59 anos, mas na minha mente é como se estivesse acontecendo agora. Lembro me do meu pai acertando o relógio e colocando sobre a cômoda, pois ele nos acordaria com tempo de nos alimentarmos, antes de colocar a mudança no caminhão.
Na hora certa o caminhão chegou. Em duas horas estávamos prontos para partir. Todos vieram se despedir menos vô José, ele disse que não aguentaria me ver partir. Lembro bem que as lágrimas impediam de ver todos acenando enquanto íamos nos distanciando de todos.
O meu coração dizia que nunca mais eu voltaria ali. 

22 de jan. de 2011

E na minha frente havia uma cerca de arame farpado!

Hoje, após tudo que estudei,  agradeço a meus pais que mesmo sabendo que eu possuía a saúde frágil permitiram que eu levasse uma vida normal.
Sei que muitos problemas de saúde eu superei, porque criei resistência, por ter sido criada livre e isso é o que agradeço de joelhos a quem além de me dar a vida souberam me manter viva apesar de tudo.
Sempre fui uma menina sem modos, como dizia vó Rubina. Na verdade eu era uma selvagem no corpo de menina. Vivia subindo nas árvores ou pulando dos barrancos, mas um dia me dei muito mal.
Entre os pés de mangas de vovô e a estrada, havia um enorme barranco e entre ele e as mangueiras havia uma cerca de arame farpado. Andando entre as mangueiras havia muitos porcos, que para mim eram amiguinhos a mais.
Certo dia escolhi a maior mangueira para subir. Quando começava a brincar esquecia de tudo, eu levava o corpo e alma para uma outra dimensão: o brinca que brinca, eu pulei em um galho menos resistente, eh bumba... lá fui pro chão.
Cai sobre um porco grande, que apavorado sai correndo, tentando fugir para a estrada. Para isso ele tinha que passar pela cerca. Quando eu cai enlacei o porco com meus braços. Ao passar pela cerca tive minhas costas e cabeça toda arranhada, e ao cair na estrada estava toda sanguentada.
Fui levada ao médico, levei muitos pontos e por um bom tempo fiquei de molho deitada de bruços e até hoje trago marcas nas costas e vocês acham que eu mudei?
A minha mudança durou só o tempo de estar curada, logo voltei a ser a mesma de sempre.