7 de jan. de 2011

Depois de uma grande tristeza, vem a maior alegria!

Mamãe demorou muito para se recuperar da morte de meu irmão, mas aos poucos ela foi aprendendo a viver sem ele.
Começou a ir à cidade e apesar de estar vestida humildemente, sem sapatos, constantemente com um lenço na cabeça, ela era muito respeitada por todos e continuava sendo muito querida;  a maioria das pessoas passaram a admira-la mais ainda por sua decisão.
Cada vez que ia à cidade me levava de fronte a Escola de Magistério e maravilhada ficava olhando as normalistas saindo com suas saias marinho, blusa branca, gravata marinho com listras indicando a série que está e o laço na cabeça e ela prometia que logo estaria me vendo lá.
Nós íamos também ver o que havia de novo na Loja das Novidades. Em um desses dia a dona foi logo mostrando o que  ia trazer para o Natal. Um boneco, feito na Itália, que era um bebê perfeito, era a coisa mais linda! Mamãe ficou  interessada e começou a fazer perguntas, eu corri pedir que ela falasse com o Papai Noel para me dar um, ela então disse que era muito caro, o dono da loja me pegou pelas mãos e me levou ver outros brinquedos.
Saindo de lá fomos na Loja Chadade, onde ela comprou rendas, fitas, linhas, panos e uma lã nova, pronta para tecer.
Quando papai veio nos buscar eu fui pedindo para ele emprestar dinheiro ao Papai Noel para ele pudesse me dar o boneco mais lindo do mundo, mas ele só deu risada.
Naquela noite mesmo vi mamãe fazendo roupas de bebê. Como minha irmã sempre disse que eu atrapalhava a sua vida, fiquei muito triste porque achei que ia ganhar um irmão para atrapalhar minha vida.
Chorei muito escondido, fui ficando cada vez mais triste, pois fui vendo as roupas e o que vovó tecia: sapatinhos, casaquinhos, gorros, luvinhas e tudo bem bordado.
Finalmente o Natal chegou!
Nessa época a minha casa ficava cheia de visitas. Eu estava triste que não aproveitei nada. A mesa da ceia é arrumada! Ficávamos olhando para o céu e quando a primeira estrela aparece todos correm para dentro, pois a ceia ia começar!
Nessa noite fui deitar mais cedo. Quando acordei na madrugada, nos pés da minha cama havia um carrinho de bebê e dentro dele meu boneco lindo ,havia até uma mala de roupas. Fiquei alucinada, acordei todo mundo.
Na verdade as roupas não era para um bebê, mas sim para o meu boneco!

6 de jan. de 2011

Como Bárbara perdeu um olho!

Enquanto trabalhávamos com as mãos, agora eu também tecia, ou fiava na roca; ouvíamos as histórias da vovó.
Por várias vezes perguntei como ela perdeu um olho, mas nunca respondeu até que um dia resolveu contar.
Começou dizendo que logo ao chegar tinham o mesmo tratamento dispensado aos negros, com exceção da chibata e do tronco. Os italianos tiveram que provar com atos sua capacidade de trabalho, sua inteligencia e sua competência administrativa para ter o respeito devido.
Quando tocava o sino e todos saiam de casa em fila  acompanhando o capataz, o fiscal entrava nas casas para verificar se ninguém ficara dormindo, era humilhante.
Em uma manhã, Bárbara não estava  bem, mas  foi assim mesmo para a roça, temendo ser humilhada. Como estava zonza ao puxar os grãos de café do galho, este entra no seu olho perfurando, foi uma dor terrível, chegando a desmaiar, os próprios italianos a socorreram, enquanto o capataz foi buscar o patrão.
Foi levada ao hospital, e depois encaminhada para o Penido Bunier em Campinas, onde ficou um bom tempo.
O patrão queria por olho de vidro, mas ela não quis. Retorna para casa, exigindo ainda alguns cuidados, todos acreditavam que ela ficara invalida, mas volta com vontade de sarar para voltar ao trabalho.
Viveu o resto da vida sem olho esquerdo, mas fazendo tudo que fazia antes. Conseguia fazer crochê usando linha de costura, ficava uma delicadeza!
O que vovó fazia só com um olho a maioria das mulheres de hoje não fazem nem usando óculos.
Ela era mesmo uma mulher de raça!

5 de jan. de 2011

Meu primeiro troféu, um par de meias!

Na verdade eu só sossegava à noitinha quando mamãe e vovó iam fazer seus artesanatos.
Eu ouvia embebecida as história da Itália contadas por vovó Bárbara, enquanto observava ela tecer meias, com cinco agulhas. Como vovó fazia muito bem, as mulheres dos endinheirados de Avaré faziam grandes encomendas e ela trabalhava toda noite para dar conta das entregas.
Eu, na minha inocência queria aprender para ajudá-la. Ao mesmo tempo em que tecia falava da sua Itália. Lembro-me do dia em que ela falou que na sua terra, não era só belezas, havia tambem miséria, nos arredores de Roma. Famílias inteiras que trabalhavam só pela comida. Crianças pediam esmola, idosos se ofereciam para trabalho braçal e que muitas vezes ela deu serviço  só por pena.
Eu ia ouvindo, mas prestando atenção nas suas mãos, pois eu precisava aprender logo.
Lá pelas 8h00, ela pegava o tricô e o guardava num malão na sala de costura. Quando ela deitava, eu pegava a meia, ficava bem quietinha, e ia tentando tecer. É lógico que no começo, eu bagunçava bastante as lãs, mas com o passar do tempo fui aprendendo e quando achei que já sabia, quando ela começou a tecer quis fazer um pouco, mamãe logo disse que eu ia atrapalhar, mas vovó, foi logo dizendo que eu já sabia, pois a um bom tempo vinha treinando. Como ela sabia?
Criança é criança não importa a raça! Fiquei mais surpresa ainda, quando ela me dá cinco agulhas que papai tinha feito especialmente para mim. Rapidamente dominei a tecnica e passei a ajudar a vovó, como havia planejado.
A primeira meia que fiz foi para a filha do Pimentel, amigo de papai. Certo dia a família vem nos visitar. Quando chegam e eu olho que ela estava usando a meia que eu havia feito, fico toda emocionada, foi como se tivesse recebido meu primeiro trofeu. Logo aprendi a tecer o fio na roca.
Tudo isso aconteceu, antes de eu completar cinco anos!

4 de jan. de 2011

Criança criada livre, aprende a se cuidar!

Vivi no Campo Redondo, até meus oito anos, sempre livre como um bichinho no mato. Tinha primos de idade próxima a minha, mas meu grande companheiro, mentor e orientador era o filho da Natália, empregada do sítio.
Meu pai costumava dizer que o café estava sempre junto do leite, pois meu amigo era o meu inverso. Enquanto eu era loira de olhos azuis, ele era negro como o petróleo, de uma beleza ímpar. Ele era dois meses mais velho, mas eu sempre fui maior que ele.
Corríamos todos os dois sítios de papai, rindo, pesquisando, subindo nas árvores, brincando com os animais ou mamando na teta da minha Bita (uma das cabritas que ganhei quando nasci).
O interessante é que sabíamos onde havia perigo e nos afastávamos desses locais. Nunca sofremos acidentes ou nos machucamos. O único lugar que não íamos era no rio, pois no Natal de 1947, quando meus pais iam levando os presentes para os empregados (a colônia ficava a abaixo do rio), eu cai no rio demorei  para ser retirada da água, pois fiquei enroscada num galho,fui dada como morta,até  um caixão rosa foi feito para me enterrar,mas como a Fenix revivi, mas o medo da água, não passou ate os dias atuais.
Por mais que eu tente, não consigo lembrar o nome desse grande amigo, mas vez ou outra, tenho a sensação gostosa de sua presença. Logo percebi que eu era muito diferente dele, e para ficar como ele, passei a me pintar com o torrador de café. Passando a fuligem do torrador em meu corpo eu acreditava que ficava da sua cor.
Das nossas travessuras a que mais me marcou foi o  roubo das ervilhas. Entre o sítio de papai e do meu tio havia uma mina d'agua na encosta, a cima era outro sitio onde se plantava ervilhas. Eu era louca por elas; as comia crua. Havia um barranco fácil de escalar. Eu e meu amigo subíamos o barranco e colhíamos toda ervilha que pudessemos comer. Por várias safra, no deliciamos com as  ervilhas, até que certo dia ouvi o vizinho conversando com papai, ele dizia: "Que belezinha sua menina toda pintada de preto, sobe o barranco, vai até a plantação de ervilha e com muito cuidado as colhe, sem nada destruir, senta no carreador e come tudo sem nada estragar. Papai chateado, pede desculpas e quer lhe pagar, mas ele afirma "Não estou criticando, pelo contrario estou elogiando a educação, o respeito com que ela trata as plantas e a terra. Se Deus levou seu filho, salvou uma filha que tenho certeza será a sua continuidade. Todos meus empregados tem ordem de se esconder e só ficar olhando a beleza desse ato de amor pela terra".
Fiquei arrasada e nunca mais as roubei, mas também pra que se ele passou a trazer!

3 de jan. de 2011

Uma mulher muito adiante do seu tempo!

Ao criar a mulher, Deus não a tirou da cabeça, para que ela não se sentisse superior; não tirou dos pés para que não se sentisse inferior; a tirou da costela para que andasse lado à lado com o  homem em igualdade.
Foi ouvindo essa afirmação, que fui criada pela mais feminista das mulheres do século 19, minha avó Bárbara. Não sabia ler nem escrever, mas era dona de uma enorme cultura, talvez por ser de uma casta elevada ou por ser UNA DONNA MOLTO PLÙ AVANTI DEL SUO TEMPO.
Essa italiana deixou tudo por um grande amor e soube com alegrias  enfrentar tudo que a vida lhe enviou. Foi ela e minha mãe que lapidaram este cristal bruto, transformando na filha do dono do mundo.
A noite quando ela e mamãe se punham a fazer artesanato eu deitava no colo da vovó e via, maravilhada a sua destreza em tecer meias, com cinco agulhas. Nessa hora que ela ia contando as suas histórias de vida.Foi assim que ela me fez viver um pouco as suas experiência de vida.
Hoje com as experiências que meus 66 anos me confere, entendo que na verdade o que ela estava fazendo era manter as tradições de nossa família.
Tudo isso só foi possível porque um anjo que viveu conosco nove anos, além de transformar minha mãe, aproximou neta e avó, para que se cumprissem os desígnios do pai.

2 de jan. de 2011

Todos temos uma hora para nascer e uma para morrer!

Meu irmão além de muito bonito era de uma inteligencia rara, aprendia tudo com muita rapidez. Entrou na escola e em um ano fez três séries, com 9 anos estava passando para a quarta série.
Em meados de 1948, novamente minha família foi sacudida pela vida.
Minha mãe trazia a casa brilhando, o assoalho de tão brilhante refletia o que estivesse por cima, havia almofadas espalhadas pela sala, em tudo havia beleza e bom gosto.
Certo dia meu irmão chegou da escola radiante, havia tomado vacina anti-tetanica, e já estava de férias! Nesse dia mamãe decidiu fazer faxina, mas não tinha querosene para dissolver a cera de abelha, ordena ao meu irmão que fosse buscar, em Barra Grande, que era bem próximo á minha casa. Ele disse que não iria, e ela o ameaçou. Chorando de raiva ele vai buscar.
Como o trem passava perto de casa, foi e voltou de trem para chegar  rápido, mas na volta ao pular do trem machucou  o joelho. Ao chegar em casa, mamãe que já estava  triste por ter sido ditatorial com seu filho amado, preocupada cura o machucado e pede desculpas pela sua maneira de tratá-lo.
Deitamos cedo, pois no dia seguinte o serviço seria puxado. De madrugada, vovó acorda com um ruído estranho, parecia sororoca (ruído que as pessoas moribundas fazem). Imediatamente chamando por minha mãe, corre para meu quarto, pois eu havia sido desenganada pelo médico, como eu dormia calmamente, vão ao quarto da minha irmã e por último ao quarto do meu irmão.
Apavoradas descobrem que meu irmão agonizava. Rapidamente partem com ele para o hospital de Avaré. Apesar da junta médica, antes do amanhecer meu Faz a grande  viagem. Seu corpo é velado na casa de minha tia, na rua Pernambuco, em Avaré.
Tenho a pior recordação de minha vida. Enquanto todos velavam o corpo, eu brincava na frente da casa, ao lado do registro d'agua, e ouvi de duas mulheres algo que mexeu muito comigo.
Uma delas disse "Você viu que desgraça se abateu sobre essa gente, esperavam a morte dessa menina e foi o sadio que faleceu".
Será que elas pensavam que eu era surda? Foi aí que na minha inocência eu pensei "Não vou morrer, não vou dar esse gosto para essas mulheres". Acredito que daí vem minha força para lutar contra tudo e todos.
Após o enterro,  arrasados fomos para casa. Minha mãe estava fora de si e ao chegar em casa, põe fogo no guarda-roupa, porque acreditava que foi seu orgulho que o matou. Fez então, voto de pobreza, alegando que seu orgulho não mataria mais ninguém. Desde então ela nunca mais pôs uma roupa nova e nem sapatos. Viveu na pobreza, apesar de termos posses. Para nós tudo para ela nada.

1 de jan. de 2011

No sobrenome trazemos a história construída pelos antepassados!

A vida seguiu seu curso!
Eu que nasci tão diferente, continuaria única na maneira de ser, sentir ou agir. Nunca quis ser igual aos outros, sempre quis ser eu mesma, toda poderosa, a filha do dono do mundo, pois foi assim que me ensinaram: eu tudo podia bastava querer.
Uns dos primeiros ensinamentos que recebi, foi a importância de meu sobrenome - Porto - pois ele trazia a responsabilidade de uma história começada por meus antepassados e que eu deveria continuar com tanto brilho como eles fizeram.
Eu trazia a certeza que nós temos um só pai, portanto somos todos iguais, nem o racismo da mulher que foi meu exemplo de vida, minha avó Barbara, conseguiu me afetar.
Logo cedo demonstrei a que tinha vindo: viver e aprender, o resto seria só consequência.
Enquanto minha irmã gostava de se arrumar, eu queria viver livre e solta, como um bichinho no mato.
Antes do sol nascer meus pais e meu irmão, seguiam para a roça, após mamãe tirar o leite e servir um farto café. Nós comíamos polenta com leite, pão italiano, mel, geléias, tudo regado com muito amor.
A minha irmã raramente ia, ela gostava de ficar com minha avó Rubina.
Eu e minha avó Bárbara, ficávamos em casa, enquanto vovó preparava as comidas eu brincava.
Depois de tudo pronto, a comida era colocada em duas cestas enormes que amarradas eram colocadas no lombo da égua Baliza, vovó se acomodava na cela, eu ia na sua frente sentada.
Mesmo andando devagar, logo chegávamos onde todos trabalhavam. As 9h00 era servida a merenda e depois das 11h00 era servido o almoço. Vovó ficava  então trabalhando na terra, até 15h00 ou 16h00 quando eu e ela íamos embora.
Todos os dias eram iguais, menos nos sábados, em que o trabalho terminava na hora do almoço, só para as mulheres. Era à noite que à família se reunia ao redor de uma mesa enorme. Nessa mesa havia só alegrias, os problemas eram deixados fora dela. Vovó dizia que a hora das refeições era sagrada.
Já noite, papai ia tocar ou cantar no terreiro com os outros homens, enquanto as mulheres, na sala bordavam, faziam tricô ou crochê. Eu ficava atenta a tudo procurando aprender.